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domingo, 16 de março de 2025

Saiba porque o mineiro tem fama de desconfiado

(Por Arnaldo Silva) O mineiro tem como característica ser desconfiado à primeira vista. Essa fama surgiu no início do século XVIII com a presença maciça de aventureiros, viajantes e tropeiros em Mina Gerais. Muitos desses forasteiros tinham a fama de roubarem o bem mais precioso das famílias nativas que viviam nas vilas e fazendas. 
 Na imagem, queijos de Diamantina MG. Registro da Giselle Oliveira 
       Esse bem precioso não era o ouro, já que as minas eram propriedades dos mineradores ricos. O bem mais precioso das famílias mineiras à época era o queijo.
O queijo como escambo
        O queijo servia de escambo. Isso porque dinheiro era raro naquela época. Sem dinheiro, a prática comum à época era o escambo, que é ato de trocar um produto pelo outro, sem usar, moeda. Tropeiros e mascates se concentravam na praça principal das vilas e cidades e trocavam suas mercadorias por queijos e os revendiam nas cidades grandes.
        Trocava-se queijo pelo que não era produzido na vila ou cidade como açúcar, trigo, sal, sapatos, roupas de linho, utensílios domésticos, chapéu, botas, guaiacas, enxadas, foices, latões, esmaltados, querosenes, lamparinas. Enfim, tudo que não era produzido por eles mesmos em suas propriedades, na vila e cidade, trocavam por queijos. Por isso era um bem precioso e cobiçado por forasteiros.
Desconfiança para proteger o queijo
Queijos feitos pelo mestre queijeiro Roberto Soares de São Roque de Minas
        Quando chegava um forasteiro logo já ficavam desconfiados que poderia ser um ladrão de queijos. Bastava chegar forasteiros que o povo todo corria para dentro de suas casas, fechava as portas e janelas e ainda, trancavam o cachorro lá dentro. Trancados em suas casas, ficavam espiando pelas frestas das janelas e portas as pessoas que vieram de fora.
        Não confiavam em ninguém, seja tropeiro, indígena, viajante e paulista, devido aos ranços da Guerra dos Emboabas e do conflito entre mineiros e paulistas em 1720 que culminou com a independência da Capitania das Minas Gerais e expulsão dos paulistas do território mineiro. Enfim, todo não nativo de Minas Gerais, quando chegava, o mineiro já ficava com o pé atrás e corria para dentro de casa com o intuito de se proteger contra possíveis ladrões de queijos.
Da desconfiança para a confiança
Na foto do Arnaldo Silva, rua em São Bartolomeu com a calçada rente às casas
      Quando o forasteiro chegava e tentava contato com os moradores, ficava na porta da casa e o mineiro, trancado dentro de casa, respondendo pelas frestas das portas e janelas.
        Dependendo da boa conversa, logo o mineiro vai pegando confiança, conversando mais e se soltando aos poucos. Mas antes disso, o forasteiro terá que passar por um intenso interrogatório tipo: Cê é fi de quem? Qual a sua graça? Como que ocê vei pará aqui? Que qui cê qué? Perguntam quase que intimando e com cara fechada.
        Nos dias de hoje é assim também, só que a tecnologia ajuda. Pode se falar pelo interfone ou abrir a porta e chegar até o portão. É que antigamente as casas não tinham muro e as casas eram rentes à calçada e geminadas, como podem ver na foto acima.
        Ser tratado assim não é falta de educação e não se sinta mal com isso. É característica do povo mineiro mesmo. Respondendo direitinho as perguntas e com paciência, logo o semblante desconfiado do mineiro se desfaz e ele te recebe de braços abertos.
Como conquistar o coração de um mineiro?
Fotografia de Arnaldo Silva em Cordisburgo MG
        Dependendo da prosa, o forasteiro era convidado a entrar, tomar café com broa de fubá assada na brasa e pão de queijo e também, comer queijo com goiabada, com doce de leite, de mamão ou de figo com a família. Se tiver na hora do almoço, é convidado para sentar à mesa e comer frango com quiabo e angu.
O que não se deve falar a um mineiro
Na foto de César Reis, rua no povoado de Emboabas, distrito de São João del-Rei MG
       Passado essa etapa, evite cometer um “crime bárbaro” perante o mineiro durante a conversa. Não tem coisa pior para um mineiro ouvir é alguém falar mal de Minas, da comida, do queijo, da igreja, da cidade, enfim, nunca fale mal de Minas Gerais na frente de um mineiro. Mineiro é bairrista ao extremo.
        Não compare Minas com nenhum outro estado brasileiro. Se falar mal de Minas ou ironizar nosso sotaque e nossas mineiridades, por educação, ele pode até ficar calado, mas deixará claro no seu semblante que não aprovou o que disse. Pode ter certeza, para o mineiro, o povo Montanhês, Minas é o melhor lugar do mundo.
        Se cometer esses deslizes na prosa com um mineiro, pode ter certeza, não terá perdão e logo todos da rua, da vila, da cidade e da região, saberão do que foi dito sobre a vila, cidade e de Minas. Nesse caso, o melhor a fazer é dar meia volta e voltar para onde vei, o mais rápido possível. Não adianta. Falou mal de Minas, perdeu de vez a consideração e confiança do mineiro, não terá outra chance.
Defesa que virou mineiridade
Fotografia acima de Vinícius Montgomery em Itajubá MG
        Desconfiar de tudo e de todos, passou a ser uma forma de proteção contra os forasteiros mal-intencionados. Essa atitude dos “geralistas das montanhas” ou o Montanhês, como éramos chamados antes do gentílico “mineiro”, se tornou conhecida em toda a colônia.        
        Desde o século XVIII, quem vinha à Minas Gerais era alertado sobre o jeito desconfiado do mineiro. A fama de povo desconfiado do mineiro começou a partir daí. O instinto de proteção dessa época se tornou geral entre os mineiros, se transformando em uma de suas principais características e mineiridades. É uma característica mineira solidificada há mais de 3 séculos e é assim até os dias de hoje.

sexta-feira, 14 de março de 2025

A tradição dos tapetes Arraiolos de Florestal

(Por Arnaldo Silva) Tapete Arraiolo tem origem na vila de Arraiolo, no distrito de Évora em Portugal, entre os séculos XV e XVI. A arte chegou à Portugal pelas mãos dos tapeceiros Mouros, grupo muçulmano com origens no Norte da África, onde viviam. Deixaram a África e se instalaram na Sicilia, Malta, parte da França e em cidades e vilas portuguesas como Lisboa e Arraiolo.
          A presença dos Mouros em Arraiolo deu nome a uma das mais belas e impressionantes artes da Idade Média, valorizada até os dias de hoje. Os tapetes são feitos à mão, usando tela de linho, estopa, juta, fios de lã e tecidos resistentes e grossos, que permita contar os fios facilmente. Usando a técnica chamada de Ponto dos Arraiolos, as peças combinam bordados e tapetes, inspirados nos famosos tapetes persas. (fotos acima: cidade: WDiniz. Tapetes: Aridelson Rezende)
          A arte medieval de confeccionar tradicionalmente tapetes Arraiolos está presente na cidade de Florestal MG.
A cidade
          Florestal conta com cerca de 8 mil habitantes e está a 68 km de Belo Horizonte, com acesso para a BR-262, sentido Triângulo Mineiro. A cidade tem origens no século XIX e seu nome era Guarda-Mor Salles. (fotos acima de WDiniz)
          O nome era em homenagem a seu primeiro morador, Salles, conhecido como Guarda-Mor Salles. Guarda-Mor era título colonial de comando tropas, mas Salles chegou à região como capitão-do-mato. Caçava escravos fugidos de fazendas na região. Guarda-Mor Salles era como preferia ser chamado. Se instalando na região em 1845, à esquerda do Rio Paraopeba, deu origem a formação de um povoado que recebeu seu nome, Guarda-Mor Salles.
          Em 1911, o povoado foi elevado a distrito, subordinado a Pará de Minas, mudando o nome de Guarda-Mor Salles, para Florestal, devido as grandes florestas que existiam na região. Em 1962, Florestal foi elevada à cidade.
          A cidade se destaca pelo seu charme, boa estrutura urbana e boa qualidade de vida, além de contar com belíssimas fazendas coloniais como a Fazenda Cachoeira onde nasceu o ex-governador de Minas, Benedito Valadares (a fazenda nas fotos acima do WDiniz) a , Fazenda Santa Rita, Fazenda Mulatas, Fazenda Ribeirão do Ouro e Fazenda Boa Esperança (nas  fotos abaixo do WDiniz).
          Além de uma imensa área de preservação ecológica, possui um campi da Universidade Federal de Viçosa e mantém viva a tradição de fazer tapetes arraiolos.
A arte de fazer tapetes Arraiolos de Florestal
          A arte chegou à cidade nos anos 1970, através dos imigrantes portugueses Dona Ana e seu filho, Carlos Romeiro. Começaram a fazer os tapetes, até então novidade na cidade e região,  com a arte e requinte, chamando a atenção e o interesse de várias pessoas adquirir e também em aprender o ofício. (fotos acima e abaixo de Aridelson Rezende na JR Tapetes)
          Assim começou a popularizar-se a arte dos tapetes Arraiolos em Florestal, se tornando tradição entre várias famílias que de dedicaram ao ofício na cidade desde os anos 1970. (foto acima do Aridelson Rezende)
JR Tapetes
            Entre os talentos na arte de fazer tapetes em Florestal se destaca Jhoanes Rodrigues da JR Tapetes (na foto acima do Aridelson Rezende), que aprendeu a arte de fazer Arraiolos aos 10 ano, com sua mãe, Dona Palmira. 
          Além da técnica original portuguesa, dotado de grande talento e criatividade, aprimorou a técnica passou a fazer seus próprios desenhos de tapetes, criando um tapete único, com identidade própria. São tapetes finos, sofisticados, cuja beleza e riqueza dos detalhes, impressiona. (foto acima e abaixo do Aridelson Rezende, o tapete e o selo de origem do JR Tapetes, de Florestal MG)
          Os trabalhos da JR Tapetes podem ser conferidos no site: jrtapetes.com.br ou pelo whastsapp: (31) 99812-2159

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A cidade mineira que mantém forte conexão com os Estados Unidos

(Por Arnaldo Silva) Com população 258 mil, segundo Censo do IBGE em 2022, Governador Valadares está entre os 10 mais municípios populosos de Minas Gerais. Dotado de boa estrutura urbana, bom setor de serviços e economia diversificada, com comércio e indústrias de pequeno, médio e grande portes, atuando na cidade, o município localizado no Vale do Rio Doce, a Leste de Minas e distante 320 km da capital é um dos mais desenvolvidos de Minas Gerais.
Foto: Zano Moreira
Origem da cidade
        O povoamento no Leste de Minas teve início no século XIX através da exploração da agricultura e recursos minerais. Pequenos arraiais foram surgindo, crescendo e ampliado a partir de 1910, quando foi inaugurada a ferrovia Vitória Minas, com criação de estações ao longo de seu trecho.
        Uma dessas estações foi construída no vilarejo de Figueira do Rio Doce, povoado que deu origem a Governador Valadares. Elevado a distrito em 1937, Figueira do Rio Doce foi elevado à cidade emancipada em 30 de janeiro de 1938, passando a adotar, em 17 de dezembro desse mesmo ano, o nome de Governador Valadares em homenagem a Benedito Valadares Ribeiro, governador de Minas Gerais entre 15/12/1933 a 4/11/1945.
Atrativos urbanos e naturais
Fotos: Sérgio Mourão/@encantosdeminas
        Além de se destacar na mineração, a cidade é famosa em todo o mundo por possuir condições climáticas e geográficas ideais para a prática de voo livre, parapente e asa-delta. Por esse motivo, Governador Valadares é reconhecida mundialmente pela prática desses esportes, sendo considerada a capital mundial do voo livre. Do alto do Pico do Ibituruna, amantes do voo livre, asa-delta e parapente, saltam, sobrevoando a cidade e colorindo o céu valadarense. (fotos acima de Sérgio Mourão/@encantosdeminas)
 Foto acima: A Cardo - Por Zano Moreira
       Além disso, a cidade tem outros atrativos históricos, urbanos e naturais. Entre os destaques históricos, destaque para a Maria Fumaça e a Açucareira, indústria de açúcar e álcool da Companhia Açucareira Vale do Rio Doce (CARDO), empreendimento da Cia Belgo Mineira, produzindo açúcar e álcool para o mercado interno e exportação. A usina funcionou entre 1948 a 1978. 
Foto: Elpídio Justino de Andrade
        Além disso, tem o Rio Doce que banha acidade, o Pico do Ibituruna, a Ilha dos Amores, a Lagoa do Pérola, o Parque Natural Municipal, o GV Shopping, o Museu da Cidade, o Science Park, o Teatro Palavra Viva, o Teatro Atibaia, a Praça da Estação Ferroviária, o Centro Cultural Nelson Mandela, o Santuário Santa Rita de Cássia, a Cachoeira Véu da Noiva, a Cachoeira do Porto, o Parque Estadual Vale do Rio Doce, a Praça do Imigrante, além de bares, lanchonetes, sorveterias, cervejarias e restaurantes que oferecem ótimas opções aos moradores e visitantes, bem como uma rede hoteleira que atende a todos os gostos e bolsos.
A formação de Valadares
Fotos: Sérgio Mourão/@encantosdeminas
        Desde sua origem, no século passado, Governador Valadares teve como base em sua formação a migração. Com a mineração e presença da Estrada de Ferro Vitória Minas, a cidade recebeu um constante fluxo migratório, vindos de várias regiões mineiras e também de descendentes de italianos e alemães, boa parte vindos do vizinho estado do Espírito Santo, bem como os povos nativos, já que a região teve forte presença de povos indígenas até o início do século XIX. 
        A presença dos migrantes de origem europeia e mineira, além das tradições indígenas da região, contribuiu com a sua formação cultural, religiosa, folclórica, arquitetônica e histórica, sendo esses povos a base da identidade do município.
A origem da conexão de Valadares com os Estados Unidos
Boston/USA - Fotos: Norma Suely Bittencourt
        Governador Valadares tem uma forte conexão com os Estados Unidos e não é recente. Essa conexão começou durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Nessa época, Governador Valadares começou a receber um grande fluxo imigratório de americanos para a cidade. O interesse dos Estados Unidos por Governador Valadares foi devido a descoberta de jazidas de mica, na região.
        Esse mineral, também chamado de malacacheta, é essencial para a indústria elétrica, eletrônica e de aviação, além da indústria de cosméticos, na construção civil, em eletrodos para solda, cerâmica, lubrificantes de poços de petróleo, capacitores, transistores, caldeiras de vapor e na produção de tintas. À época, o maior produtor de mica era a Índia, mas um forte bloqueio naval da Alemanha, durante a Segunda Guerra, interrompeu o comércio de mica. Por isso, os aliados tiveram que buscar o mineral em outra região.
        Com a descoberta de jazidas de mica em Valadares, a região mineira se tornou ponto estratégico para os interesses dos países aliados, principalmente dos Estados Unidos. Por esse motivo que os americanos se estabeleceram na região, dando início a exploração e beneficiamento da mica, além de abrirem estradas estradas utilizando veículos próprios para o transporte da carga, além de jipes, pouco conhecidos no país, à época.
Contribuição para a saúde e saneamento básico
Foto: Zano Moreira
        Além disso, a presença americana em Governador Valadares foi de grande importância para o crescimento e desenvolvimento da cidade, como exemplo, na área de saneamento básico com construção de redes de água e esgoto, praticamente inexistentes à época, além de darem apoio financeiro e tecnológico aos serviços de saúde pública, como o Serviço Especial de Saúde Pública, que apoiou as iniciativas americanas na área de saúde.
        Os americanos introduziram, na cidade, tecnologias de ponta dos Estados Unidos nas áreas de saúde e saneamento básico, na época. Como resultado concreto, a iniciativa americana contribuiu para a erradicação de doenças no Vale do Rio Doce, como a febre amarela e malária.
        A Companhia Vale do Rio Doce, à época uma empresa estatal, contou com suporte financeiro e apoio técnico dos Estados Unidos para a exploração e transporte do minério de ferro. Os americanos reformaram ainda a Estrada de Ferro Vitória Minas, visando o escoamento da produção de mica. Getúlio Vargas, então presidente da República, firmou acordo com os americanos para que a estrada fosse reformada.
        A mica exportada a partir de Governador Valadares foi volumosa e intensa. As cifras são altas. Mais de 80% da mica usada na Segunda Guerra Mundial saiu de Minas Gerais.
Decadência da mineração
Foto: Elvira Nascimento
        A extração de mica e presença dos americanos na cidade, contribuiu para um enorme salto no desenvolvimento econômico e industrial na cidade. Paralelo a mineração, siderúrgicas e serrarias começaram a se instalar na cidade, além de aumentar o número de moradores da cidade de forma rápida. De 80 mil moradores em 1960, a população saltou para124 mil em 1970.
        Na década de 1960, a extração de mica na cidade começa a declinar, devido a riqueza que movimentava a cidade vinha de recursos naturais. De tanto retirar da natureza, as minas de mica começaram a exaurir, além do desmatamento causado pela extração do mineral, reduzindo a capacidade produtiva do solo.
        Com isso, os americanos começaram a deixar a região, deixando um legado cultural, econômico, tecnológico, cultural e histórico na cidade. Com o fim da exploração da mica e sem os investimentos americanos, a economia da cidade começou a entrar em declínio, com significativo aumento do desemprego.
Em busca do "Sonho Americano"
        Pelo que conheciam e ouviam dos americanos falarem dos Estados Unidos, o interesse dos valadarenses em viver nesse país cresceu, devido a situação econômica da região, à época. A partir da década de 1960, começa de fato a imigração de valadarenses para os Estados Unidos. Foram em busca do tão falado “sonho americano”.            Uma parte foi para estudar e conhecer a cultura local, mas a maioria, foi em busca de uma vida melhor para suas famílias. Iam com o intuito de juntarem dinheiro, mandar para suas famílias, investirem em imóveis e negócios próprios para enfim, voltarem à sua terra. Não imigravam para ficar ou se naturalizar. A imigração era individual, geralmente um membro da família ia e mandava dinheiro para seus parentes que ficaram em Governador Valadares.
        O rápido crescimento financeiro e a facilidade de arrumar emprego na América, à época, fez com que o número de valadarenses que imigravam para os Estados Unidos crescesse substancialmente nas décadas de 1970 e principalmente na década de 1980, quando a imigração aumentou muito, devido a grave crise econômica no Brasil naquela década. Nos 1980, Governador Valadares se tornou o maior fornecedor de mão de obra para os Estados Unidos.
        Não só isso, as notícias de uma vida melhor na América com ganhos muito superiores ao que recebiam no Brasil, incentivou mineiros das cidades vizinhas e de outras regiões mineiras a fazerem o mesmo.
        Na década de 1990, as restrições à imigração para os Estados Unidos começaram a ficar mais duras, fazendo com que brasileiros que desejassem buscar uma vida melhor no exterior, buscassem outros países como Portugal, Reino Unido, Austrália, Canadá, dentre outros para darem uma vida melhor aos seus familiares.
        No século XXI, percebe-se uma mudança no comportamento dos imigrantes. Antes um membro da família imigrava para juntar dinheiro, investir na sua cidade e voltar. Nesse novo século, vão para ficar e ainda, levam suas famílias, inclusive crianças, juntos. Com o tempo, se naturalizavam, recebiam dupla cidadania e ficavam de vez.
A cultura da imigração e o fenômeno "Valadólares"
New York, Milford e Bosto. Fotos: Norma Suely Bittencourt
        A influência americana em Governador Valadares não se limita ao período da guerra e nem ao grande número de valadarenses que imigraram para os Estados Unidos em busca do “Sonho Americano”. Essa ligação com origens na década de 1940, moldou a identidade cultural, econômica e histórica da cidade, formando uma forte conexão entre Governador Valadares e os Estados Unidos.
        Desde a origem da imigração, os dólares que os valadarense enviavam para seus parentes na cidade, movimentava a economia de Governador Valadares e contribuía para o seu desenvolvimento e crescimento. No auge da imigração, 1970 e 1980, o dólar era a moeda que mais se ouvia falar na cidade à época. Por esse motivo, até os dias de hoje, Valadares é chamada de “Valadólares”. Nos anos 1980 era difícil não se encontrar alguém que não tinha ao menos um parente vivendo nos Estados Unidos.
Homenagem aos imigrantes
        A cidade valoriza sua ligação com os Estados Unidos, bem como a contribuição dos imigrantes valadarenses para a cidade, homenageando-os com uma praça. A Praça dos Imigrantes é o símbolo da formação da identidade cultural e econômica de Governador Valadares.
        Os valadarenses se orgulham da história que seus conterrâneos e parentes construíram nos Estados Unidos e na cidade, ao longo de décadas. Por isso mesmo, a cidade mantém uma forte conexão com esse país, através da língua, da gastronomia e da cultura americana, formada durante décadas de imigração dos valadarenses para a América.      

domingo, 1 de dezembro de 2024

A tradição e simbologia dos oratórios em Minas Gerais

(Por Arnaldo Silva) Desde a origem da povoação de Minas Gerais, a partir da segunda metade do século XVII, a religiosidade sempre esteve ligada à identidade mineira, se tornando uma das mais sólidas tradições do povo mineiro.
        Uma tradição religiosa que recebeu a contribuição das tradições africanas e indígenas, numa mistura de religiosidade e preservação das tradições milenares do Cristianismo Católico tradicional. (na foto acima da Elvira Nascimento, oratório em nicho, da Fazenda Paiol de Jaguaraçu MG)
        São esses os elementos que formam a base da tradicional religiosidade mineira e toda sua simbologia, simbolizada principalmente nos pequenos oratórios, um dos maiores símbolos da tradição religiosa mineira.
        Presentes no dia a dia das famílias, os oratórios, fazem parte dos lares mineiros desde os tempos do Brasil Colônia.

O que é um oratório
        São pequenos altares, simples ou bem trabalhados artesanalmente, em forma de capela, nichos ou armários, feitos em madeira com arte em cerâmica e pinturas eclesiástica em estilo barroco mineiro. São usados para guardar imagens sacras e relíquias religiosas como o terço, crucifixos, etc. (na foto acima da Ane Souz, oratório da nobreza, em peça do Museu do Oratório, localizado no adro da Igreja do Carmo, em Ouro Preto MG)
        Sua importância é tão grande para a religiosidade mineira que é um bem precioso nos lares, entrando até como herança em testamentos das famílias, sejam ricas ou pobres, não pelo valor material em si, mas pelo valor sentimental e familiar. Isso porque, por tradição, são peças repassadas por gerações de mãe para filha, quando a filha se casava.
        Os oratórios representam a mais pura da simplicidade da religiosidade mineira. São colocados em cantos e lugares especiais das casas e também nos locais de trabalho. É comum os mineiros rezarem o terço ou rosário, em frente ao oratório da casa e se benzerem no oratório antes de sair e ao chegar em casa.
A origem dos oratórios
        A origem dos oratórios remonta a Idade Média. Oratório é uma palavra de origem latina que significa “orador público”. Na Idade Média, era um local público onde o rei proferia discurso ao seu povo. Geralmente ficava na sacada do castelo real. (na imagem acima da Ane Souz, uma mostra da vestimenta e oratório da nobreza mineira em peças do Museu do Oratório em Ouro Preto MG)
        Inspirado na ideia de um oratório para discurso e visando criar um local no castelo para reflexão e orações do rei e sua família, foi criado um oratório em formato de capela nos castelos e palácios da realeza. Eram oratórios maiores, com ornamentação requintada, trabalhadas em ouro e talhas de madeiras nobres, esculpidas por artesão e artistas famosos do reino. As imagens do santo de devoção do rei, rainha e príncipes, eram colocadas no oratório da família real.
        A iniciativa passou a ser adotada em suas residências pela nobreza da corte e se popularizando entre as camadas mais populares, não com todo luxo e requinte dos oratórios da nobreza, mas pequenas e simples capelas feitas por mãos habilidosas artesãos locais. Como todo o povo à época era fiel e religioso, os oratórios se espalharam rapidamente pelos países católicos da Europa, se expandindo para as colônias.
Oratórios em Minas
        Com a chegada dos portugueses à Minas Gerais, no início do Ciclo do Ouro, no século XVIII, a tradição dos oratórios se espalhou pelos povoados, vilas, cidades, residências, fazendas e senzalas mineiras, rapidamente. (na foto acima da Ane Souz, oratórios do Museu do Oratório de Ouro Preto MG)
        Em Minas Gerais, os oratórios tiveram a influência da cultura portuguesa, espanhola e francesa. Essa influência é nítida nos traços e detalhes dos oratórios presentes nas cidades históricas mineiras, como Ouro Preto, principalmente em seu distrito, São Bartolomeu, onde os oratórios estão presentes em todos os lares da tradicional Vila Colonial. (na foto acima da Jane Bicalho, um pequeno oratório, em nicho, em parede de casa em São Bartolomeu)
        Em residências, locais de trabalho, ruas, grutas, praças, troncos de árvores, esquinas de cidades e vilarejos do interior mineiro, oratórios são tradicionais e seculares, por ser uma tradição que passa de geração para geração.
        É um dos mais tradicionais símbolos da religiosidade e tradição histórica mineira.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Qual o significado dos cruzeiros nos adros das igrejas?

(Por Arnaldo Silva) Já teve curiosidade em saber o significado dos instrumentos e símbolos presentes nos cruzeiros de madeira encontrados nos adros (pátios) das igrejas dos povoados, vilas e cidades do interior de Minas?
          Em Minas Gerais, os cruzeiros de madeira começaram a se popularizar a partir de 3 de maio de 1879 em Nova União, cidade da Região Central Mineira. Esse cruzeiro é totalmente em madeira e com os tradicionais símbolos presentes nos cruzeiros pelo mundo, todos entalhados em madeira. (na fotografia acima de Cláudia Rokline do cruzeiro da Matriz da Imaculada Conceição em Alto Caparaó MG)
          Quer dizer que os cruzeiros passaram a existir em Minas somente a partir de 1879? Não. Os cruzeiros antes de 1879 eram feitos em madeira com parte dos símbolos, como a espada, os pregos, o facão, o martelo, em ferro fundido e alumínio.
          O cruzeiro de Nova União MG foi o marco do início da popularização dos cruzeiros totalmente em madeira pelos povoados, vilas e cidades mineiras.
          Naquela época, a siderurgia e metalurgia ainda está iniciando em Minas Gerais e fazer arte em ferro fundido era uma atividade ainda iniciante. Trabalhar a madeira e transformá-la em arte é vocação mineira. Ao longo de 300 anos a arte em madeira está presente nas igrejas, casas e casarões por toda Minas Gerais. (na foto acima do Sérgio Mourão, o primeiro cruzeiro totalmente em madeira de Minas Geras, datado de 3/05/1879, construído em Nova União MG)
          
A partir do primeiro cruzeiro em madeira, as peças em ferro presentes nos cruzeiros passaram a serem substituídas por peças em madeira. Isso porque o metal enferrujava rápido, era mais caro e sua produção artística mais complexa. A madeira bruta era mais durável, abundante e com entalhes mais fáceis de trabalhar e restaurar.          
          Hoje, os cruzeiros fazem parte da simbologia da religiosidade mineira e por isso mesmo são comuns de serem encontrados em povoados, vilas e cidades do Estado de Minas Gerais. (na fotografia acima do César Reis, o cruzeiro em frente a Igreja de N.S. da Penha no Bichinho, distrito de Prados MG)
O significado dos instrumentos presentes nos cruzeiros
          Os cruzeiros tem como função principal santificar os espaços, pedir orações, agradecer e refletir sobre o martírio de Jesus. Sua origem data dos primeiros séculos do Cristianismo. Era apenas a cruz, usada pelos primeiros cristãos como símbolo do processo de cristianização. Com o passar dos séculos, os instrumentos usados no martírio de Jesus passaram a fazer parte dos cruzeiros. Cada instrumento presente na cruz tem um significado simbólico para os cristãos. (Cruzeiro com todos os símbolos, registrado pelo Elpídio Justino de Andrade no Serro MG)
          A cruz da crucificação simboliza a compaixão, a misericórdia e o amor de Jesus pela humanidade ao dar sua própria vida para salvá-la do pecado. (nas fotos acima do César Reis, o Cruzeiro do Largo da Cruz, o mais antigo e mais curioso cruzeiro de São João Del Rei MG)
          Na cruz estão presentes a coluna onde Jesus foi amarrado, o chicote, a esponja molhada em vinagre, a lança usada para golpeá-lo, os pregos, o martelo, o alicate usado para retirar os pregos, o serrote, facão, os cajados e espadas dos soldados romano, as correntes e cordas usadas na prisão de Jesus, as tochas, o véu da Verônica, o caniço entregue a Jesus, o vaso de mirra, o sudário usado para cobrir Jesus, as 30 moedas de Judas, o Santo Graal (cálice usado por Jesus na Santa Ceia), as mãos que esbofetearam Jesus.
          Tem ainda a escada usada pelos soldados para pregar a inscrição INRI e a caveira com ossos cruzados que é símbolo mundial da morte. No cruzeiro, simboliza que Jesus venceu a morte e ressuscitou.
          Enfim, o que vemos nos cruzeiros simboliza todo o martírio de Jesus a desde sua prisão, condenação, castigos, crucificação, morte e ressurreição. Nem todos os cruzeiros contam com todos esses símbolos. Alguns mais simples contam apenas com as principais simbologias do martírio de Jesus. (na foto acima de Arnaldo Silva, um cruzeiro bem simples, no povoado do Capivari dos Macedos em Bom Despacho MG)
E o galo no topo do cruzeiro?
          O galo? Bem, o galo não tem nada a ver com o cruzeiro e nem com o martírio de Jesus.
          Nas construções de cruzeiros e igrejas no século XX, o galo no topo do cruzeiro passou a fazer parte. Não apenas nos cruzeiros, também nas torres das igrejas, quinas de casas urbanas e de fazendas. Não é uma simbologia bíblica e sim, para orientar a posição dos ventos. Isso mesmo. (na foto acima do Rodrigo Firmo/@praondevou, o galo no topo do cruzeiro da Serra dos Alves, distrito de Itabira MG)
          Chama-se Galo dos Ventos. Isso foi acrescentado posterior a criação dos cruzeiros. O galo está em todos os cruzeiros e igrejas, pelo menos as mais antigas. Não tem simbologia com a cruz. É apenas para indicar a posição dos ventos na cidade. O Galo dos Ventos é um Cata-vento que combina uma figura simplificada de um um Galo com a Rosa dos Ventos. Sua função é apontar a direção e intensidade dos ventos. É uma peça artesanal feita de uma estrutura giratória em um eixo vertical, em alumínio e pintada à mão.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

A cidade de Ferros e a polêmica pintura de no altar da Matriz

(Por Arnaldo Silva) Esse tema polêmico foi levado para a TV através da obra Hilda Furacão (1991), de Roberto Drumond, jornalista, comentarista esportivo, cronista e escritor, natural de Ferros MG. A obra se transformou em minissérie da Rede Globo e a polêmica do mural de Ferros MG, foi mostrada na minissérie. Na época do ocorrido, anos 1960, a discussão sobre o episódio que  mobilizou a sociedade ferrense e mineira. Não apenas isso, se tornou debate internacional, ao ponto do Vaticano ter que intervir para dar um basta na discussão. 
          Esse episódio ocorreu na década de 1960, com a inauguração da matriz de Sant´Ana em Ferros MG, após demolição da antiga igreja barroca da cidade. O polêmico e efervescente debate foi por causa do mural feito pela artista plástica Iara Tupinambá para o altar da nova Matriz da cidade. (na foto acima do Thelmo Lins, a Matriz de Sant´Ana em Ferros MG)
A cidade
          A cidade de Ferros está situada na Zona Mata Metalúrgica às margens do Rio Santo Antônio, bem no coração de Minas Gerais. A cidade atualmente possui 10 mil habitantes, está a 174 km distante de Belo Horizonte e faz limites territoriais com Joanésia, Coronel Fabriciano, Santa Maria de Itabira, Antônio Dias, Conceição do Mato Dentro, São Sebastião do Rio Preto, Carmésia e Dores de Guanhães. (na foto acima de Arnaldo Quintão, casarões coloniais de Ferros MG)
Origem
          Sua origem começa no século XVIII com a chegada de aventureiros à região a partir de 1712, em busca de ouro e diamantes. Chegaram, desbravaram matas e fundaram um pequeno arraial, iniciando a exploração da região pelas margens do Rio Santo Antônio, à época bastante arenosa e abundante em cascalho. Ao explorarem o Rio Santo Antônio usavam rústicas ferramentas de ferro bruto. Com o uso prolongado e já sem utilidade, essas ferramentas foram sendo descartadas nas proximidades do povoado, às margens do rio, formando um amontado de ferros. Por isso a origem do nome da cidade. (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade, a Igreja do Rosário, do século XIX e abaixo, ponte sobre o Rio Santo Antônio)
          A fundação da cidade é atribuída ao português Pedro da Silva Chaves, devoto de Sant´Ana, que chegou à região posteriormente aos aventureiros. Foi o português quem doou a imagem da santa e construiu a primitiva capela, dedicada a Sant´Ana no arraial dos Ferros. Com o crescimento do povoado e da fé na santa, o arraial passou a ser conhecido como Sant´Ana dos Ferros.
          A partir do século XIX, após a estagnação pelo fim da exploração mineral, o arraial volta a crescer graças a qualidade de suas terras e ao avanço da agricultura e pecuária. Com isso, foi elevado freguesia em 1832, a vila e distrito em 23/09/1884 e à cidade em 10/07/1886 com o nome de Santana dos Ferros. Em 7 de setembro de 1923, Santana dos Ferros, passou a se chamar apenas Ferros, seu primeiro nome. (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade, a Igreja de São José de Cubas em Ferros MG)
Demolição da velha matriz
          Construída em barro, pau-a-pique, estrutura em madeira já corroída pelo tempo, além de ser bem pequena para o número de fiéis da cidade, o padre José Casimiro da Silva, ao assumir a paróquia da cidade em 1959, percebeu a urgente necessidade de reforma do templo histórico. Mas, devido o péssimo estado de conservação do templo, percebeu a necessidade de uma ampla reforma, com custos bastante elevados. Por esse motivo, o padre optou por demolir a construção histórica e construir a nova igreja de Sant´Ana, maior, em alvenaria e traçados modernistas, da época. (na foto acima do Elpídio Justino de Andrade, a moderna Matriz de Sant´Ana de Ferros)
          A proposta foi apresentada pelo padre a dom Oscar de Oliveira, então arcebispo de Mariana MG, a qual a paróquia era subordinada. Evitando uma decisão monocrática, dom Oscar de Oliveira recomendou que fosse feito um plebiscito para consultar os paroquianos sobre a proposta de demolir e construir uma igreja nova.  
          Em 1961 a ideia do plebiscito foi colocada em prática e divulgada nas missas, rádios e jornais da cidade, convocando a população católica local a participarem. Teve até campanha pelo sim e pelo não, usando cores. O verde e amarelo seria a opção pela construção da nova matriz. Já a cor vermelha, era para quem defendia a preservação da igreja barroca e histórica. Os moradores da cidade ficaram na opção de preservar a história da cidade, optando por restaurar e ampliar a velha matriz ou demolir e construir outra, optando pela tendência das construções modernistas da época.
          Por ampla maioria, a população optou pela demolição da velha matriz e construção de um novo templo. Foram 3.550 votos a favor e 68 votos contra. Coube ao arquiteto Mardônio dos Santos Guimarães fazer o projeto, tendo como base os traçados modernistas das igrejas da época, como por exemplo, o modernismo da Igreja da Pampulha em Belo Horizonte, do arquiteto Oscar Niemeyer e pinturas de Portinari. Em 1962, a nova matriz de Ferros começa a ser construída.
Iara Tupinambá e o mural da matriz
          Nascida em Montes Claros MG em 02/04/1932, Iara Tupinambá, gravurista, desenhista, muralista e professora de gravura, é reconhecida como uma das mais importantes artistas plásticas brasileiras. Sua arte tem forte predominância figurativa e modernista, com relações com momentos e temos históricos brasileira. É uma artista cuja arte dialoga com o povo e o povo se sente na arte. Por esse motivo, a artista mineira foi a escolhida para pintar o mural do altar da nova Matriz de Sant´Ana de Ferros MG.
          Antes de criar o mural para a nova matriz, Iara refletiu bastante sobre como seria o mural e optou por retratar em sua obra, a criação do mundo. Em declarações ao Jornal O Estado de Minas, a artista detalhou os detalhes das cenas de sua obra: “Fiz a história da religião católica. Começa com a criação do mundo e a separação de água e terra. Em seguida, a criação de Adão e Eva. Daí, vem o pecado do homem e sua expulsão da natureza. Na quarta cena, temos a anunciação, quando um anjo revela a Maria que ela conceberá o filho de Deus. A imagem seguinte é Jesus carregando a cruz. As duas últimas imagens retratam Pentecostes, com a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo e, por fim, após sua morte, uma imagem de santos da igreja saindo de seus ombros. O fiel que conhece o Evangelho vai identificar tudo isso na imagem”. (na foto acima de Elpídio Justino e abaixo do Thelmo Lins, o interior da Matriz de Sant´Ana e o mural de Yara Tupinambá)
          Para fazer o mural, a artista levou 12 meses de trabalho, que contou ainda com a assistência de Sílvia Gaia e Anadali Pita, alunas da artista. A obra foi batizada pela artista de “A árvore da vida”.
A polêmica solucionada pelo Vaticano
          Após a construção da igreja e feito o mural, a cidade de Ferros MG se vê em nova polêmica. Devido a forte tradição religiosa e conservadora do povo mineiro, a obra da artista causou burburinhos na cidade. Embora a população tenha optado por demolir a tradicional e histórica matriz, optando por pela construção de outra em traçados modernos, o estilo modernista do painel criado pela artista, gerou uma enorme polêmica, principalmente entre os fiéis mais fervorosos e tradicionais. A polêmica foi tanta que saiu das divisas da cidade, de Minas Gerais e até transpôs fronteiras, com repercussão internacional. (na foto acima do Arnaldo Quintão, a nova Matriz da cidade, construída na década de 1960, onde está o mural de Yara Tupinambá)
          Isso porque a artista retratou em sua obra Adão e Eva antes do pecado original, ou seja, do jeito que vieram ao mundo, pintados no altar da matriz. O burburinho teve início já primeira missa solene, que contou com a participação da artista. Foi um escândalo de enorme repercussão e discussão na sociedade mineira em geral.
          Na época, o mural despertou atenção de toda a imprensa e da sociedade mineira e brasileira. Durantes dois anos, a cidade passou a ser o centro das atenções, recebendo nesse período, visitantes de todo país, além de várias bispos católicos, vindos de vários estados, que vieram à cidade analisar a obra e emitir pareceres. Sem consenso entre os bispos, a conclusão final sobre o mural foi encaminhada ao Vaticano, no Papado de Paulo VI. 
          Após análises da Santa Sé, a conclusão foi que a obra estava de acordo com a criação bíblica, não constatando nada de ofensivo à moral e aos bons costumes na obra da artista. Por fim, a decisão do Vaticano foi por manter a obra no altar. Assim, por intervenção do Vaticano, a polêmica foi encerrada e a obra está até os dias de hoje no altar da Matriz de Sant´Ana de Ferros MG.
          O mural da artista Yara Tupinambá na cidade de Ferros MG é hoje um das principais atrativos da cidade e um dos lugares mais fotografados pelos visitantes.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Jurema-mineira: a Sucupira de Minas Gerais

(Por Arnaldo Silva) Sucupira (Pterodon emarginatus Vogel) é uma palavra derivada da língua tupi suku´pira. É um termo que se refere a todas as espécies de árvores da família das fabáceas. Além de Jurema-mineira, as várias espécies de sucupiras são conhecidas ainda por sucupira-preto, sucupira-do-cerrado, sapupira-do-campo, sucupira-açu, cutiúba, sepifirme, sucupira-amarela, sucupira-da-praia, sebepira, paricarana, faveiro, fava-de-sucupira, fava-de-santo-inácio, sucupira-branca, sucupira-lisa, macanaíba e acari-açu.
          É uma espécie de árvore nativa do Brasil, muito comum nas regiões do Bioma Cerrado, principalmente em terrenos secos e pobres, por isso é bastante recomendado o plantio da espécie em áreas degradadas. É comum serem encontradas nas matas nativas do Cerrado de Minas Gerais, Pará, Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. (fotografia acima e abaixo de Nicodemos Rosa em Pitangui MG)
          Ocorre ainda nos países de fronteira com o Brasil como a Venezuela, a Guiana, o Paraguai e a Bolívia. Suas flores são pequenas na coloração violeta. Sua altura varia de 8 a 16 metros, na fase já adulta e tronco entre 30 a 50 cm de diâmetro. 
          Seu crescimento é bastante lento, podendo levar em média 30 anos para atingir a fase adulta. A espécie adulta florida é de uma beleza fulgurante e não tem raízes agressivas, por isso também deve ser usada na arborização de ruas e praças urbanas. (na foto acima do Wilson Fortunato em Bom Despacho MG, detalhes das flores da sucupira)
Ameaçada de extinção
          A partir da segunda metade do século XX, a espécie chegou a entrar na lista de árvores nativas ameaçadas de extinção devido ao desmatamento desenfreado, com cortes contínuos de sucupiras para queima nas carvoarias, além do intensivo uso da espécie pela indústria moveleira na fabricação de móveis e assoalhos para casas, portas e janelas, devido sua bela tonalidade chocolate e por fornecer uma madeira muito resistente, permitindo a produção de móveis de alta qualidade. (fotografia de Nicodemos Rosa em Pitangui MG)
Planta medicinal
          Além disso a sucupira é uma planta medicinal, usada na medicina popular brasileira desde o século XIX. Isso porque a planta, principalmente as flores, folhas e sementes, possuem propriedades medicinais. Sua ação é anti-inflamatória, contribuindo para a redução das inflamações nas articulações. Além de auxiliar no tratamento da artrite, artrose e reumatismo, a sucupira auxilia no alívio de dores e inflamações pelo corpo, com por exemplo, na garganta, além de outros benefícios. (fotografia acima de Nicodemos Rosa em Pitangui MG)
          Em 2010, pesquisadores da Unicamp – Campinas SP, estudando as propriedades medicinais da sucupira, descobriram que o extrato das flores e sementes sucupira tem ação potente contra a dor e até potencial antitumoral. Os benefícios medicinais da sucupira continuam ainda sendo estudados pela ciência. ( foto acima Wilson Fortunato em Bom Despacho MG)
          Hoje a espécie é protegida e estão voltando a germinar novamente nas matas de Cerrado, principalmente na época de sua florada, entre agosto e setembro.

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